quarta-feira, maio 15, 2013

Allein

como uma estátua as pupilas desprezam as retinas
percebem horas absurdas vestindo o desassossego
e ele é a areia do fundo do mar
a dorsal atlântica e as ilhas infundadas
onde dormitam espectros de cantos silenciosos
e sereias surdas

como um sorriso lamentando as fugas
os dedos nas praias rabiscando a agonia
a dança imprevista por cima das distâncias
entregue à beleza de raios de sol escurecidos
deixados no pedestal improvável do desejo
o compartilhar ameaçado do calar-se

além é que se encontra o mistério
além, no cansar-se frequente 
de respostas infrequentadas, o pasmar-se
faço-me de descasos atribuídos à petrificação
congênita de Ulisses buscando sua cidade
um ao lado do outro na mudança de ar
catando o momento breve
único, de ao lado de um suspiro ansiado
estar só



* à minha querida Constanza

domingo, abril 28, 2013

Raio X

confundo o poço com a borda do mundo

meridiano de consciências
de ódios
irracionais
guardam a leveza
a certeza

no fundo 
a confusão:

a certeza da perdição
não está
no fundo 
no poço
está na luz que se vislumbra
no alto

a borda do mundo
as trevas hão de residir
na morada das luzes

há que se constatar a própria opacidade
sem confessionalismos tolos
acordando nos próprios sobressaltos
enumerando todos os termos 
de sumiços

como quem se sopra
e desmancha-se sorrindo
olhando para tudo
incerto das crises

a travessia é que é

segunda-feira, abril 22, 2013

autoinexplicação

em despojos
despojo-me deste corpo 
que lanço ao espaço
já que sem regaço perduro
no vazio obscuro de tantas águas
de tantos cais caio e subsisto 
no infortúnio cadenciado dos pensamentos
em momentos e lembranças e mágoas
de se permitir presente no éter material
quando me imaginava dissidente de mim mesmo
desfeito a partir de um ponto nodal e de medos
em despojos
saqueados da feira imortal de ausências
em incoerências enfileiradas de indagações
que envolvem as inquestionadas idas e vindas
desafaço-me procuro a explicação que não vem
escrevo em todos os meus caminhos

explico-me
quando inexisto

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