Entrei na sua casa perseguida por um estranho raio de sol em meio a um tempo nublado. Estranhamente vi uma casa colorida, imaginei que alguém como você teria uma morada cinzenta como a maioria das mentes cinzentas que você analisava. Cores, muitas cores. Para minha surpresa você pintava com graves espatuladas meninas morenas que se espalhavam em telas não emolduradas ao longo daquele terraço e de outros corredores perto dele. Meninas? Ou uma menina, apenas? Sorri àquelas pinturas tão taitianas e vi um olhar de Gaugin em você. Você sorriu e me mostrou a sua modelo. Sua irmã. Treze anos que me sorriram quando apertei-lhe a mão direita que segurava uma flor desespinhada. Perguntei pelos teus pais, pergunta até aquele momento jamais feita, você não sorriu e a menina, sisuda, me deu resposta amassando como se todos os espinhos a ferisse em todos os lados do seu pequenino coração: mortos. Mas aquele estranho raio de sol refletiu nos dois pares de olhos que se abraçavam, os irmãos órfãos enlaçados como numa ambígua pintura que eu vi encostada à parede do corredor frontal ao meu olhar. Quem os modelos abraçados, nus? A inocência é sempre desnuda, a malícia é quem veste a roupa do fetiche. E eu senti remorso. Momentâneo, mas senti.
Fomos almoçar, em meio ao almoço retalhos de conversas profissionais e nossa maledicência enumerava as pequenas incompetências dos amigos-inimigos. Sua irmã parecia acostumada àquelas conversas e aos nomes que desfilavam, escorregando pelos garfos e rebebidos com pequenas taças de licor de cacau que você trouxera de Ilhéus. Os olhos dela baixavam e buscavam a palheta de cores recém-preparadas, talvez o corpo dela ansiasse posar — ela talvez tivesse ânsia de eternidade — só depois encontrei junto a alguns cavaletes protótipos de pinturas nas quais entre um inocente primitivismo as espatuladas prenunciavam a sensibilidade clarividente de alguém que enxergasse muito mais que nós dois juntos, mas eu não me imaginei nunca pintando: a força hábil das minhas mãos era para a extirpação: talvez em meus bisturis viessem pedaços de talentos, a arte dormita nos lobos centrais, se não me engano, mas eu sempre ria da minha leitura de Paul Broca. Ela pinta. Você sorria olhava para ela e ela sorria em devolução ao teu elogio escondido no sorriso da tua afirmação. Cumplicidade. De quem eu era cúmplice? Nem de mim mesma: o espelho me servia para os retoques da mina maquiagem diária, nunca desentranhei dentro do olhar ali adiante de mim qualquer tipo de cumplicidade. Confiança — o que é muito diferente — eu sempre depositei em minhas mãos.
O resto da nossa tarde meio epicurista passou-se em uma agradável conversa sobre cores. E você falou de cada matiz presente em mim. Da pele do rosto, dos braços, das mãos. Os cabelos, da raiz às pontas. E sua irmã num ímpeto todo de adolescente falou da cor dos meus pés — eu estava de sandálias — e você disse que já tinha percebido e pediu para que ela pintasse algo. E ela, não, o esboço vem antes.
E você me dizia enquanto ela pegava o papel e o carvão que ela tinha fixação por pés. Podólatra? Não, apenas curiosidade de quem observava por horas a sua própria anatomia. Ela voltou, ao seu pedido tirei uma das sandálias e aos meus olhos surgiu ligeiramente uma duplicata desenhada no papel; as veias, os tendões, as juntas dos artelhos, o meu corte pessoal das unhas carentes de pedicure. Colocado no cavalete em uma tela de eucatex com nomes de cores que não entraram em minha memória ressurgia em outra visão, uma visão tão espatulada quanto a sua meu pé repensado, uma essência ausente em mim recriada em mãos ligeiras e audazes que me senti pequena e bebi do vinho que você colocava na taça trêmula em minhas mãos e eu me vi bêbada, carregada por você enquanto você deixava a sua irmã, com um olhar cúmplice, atarefada com o meu pé.
Teu quarto não era alcançado por luz estranha alguma e eu enxergava o teu vulto a me beijar por entre uma névoa de vinho e ele caía em minha boca, corria minha garganta e em meus peitos, bebidos por teus olhos e em minhas mãos subitamente envergonhadas a tanto vinho naquele quarto, em minhas pernas molhadas de beijos e o quarto esquisitamente aparecia em outras cores que saíam da tua boca recitando outros matizes do meu corpo finalmente descobertos e você declarava triunfante o róseo e o rosé agora juntos em um longo beijo misturado aos meus espasmos gostosamente apertados com uma tenaz que fechava essa boca e essas cores unidas ao vinho que agora alcançava outro colo e nervosas pernas que contrastavam com as minhas mãos novamente fortes a acariciar teus cabelos tão fartos, minhas mãos sempre apalpavam cabeças raspadas cuidadosamente raspadas para a trepanação, e minhas mãos as penetravam com os bisturis redentores ou antecipadores de um desengano mais tarde comunicado nos frios relatórios que eu preenchia com um quê de crueldade reservada àqueles seres tão fracos...
Sua cabeça eu só acariciava com a força das minhas mãos e meus pés dançavam nervosos, até que eu senti o beijo que agora tentava domá-los. Mas como aquela agonia permanecia na base do meu ser e se desdobrava até lá? E aquela delicadeza toda tão cúmplice das tuas cores se espalhava e minhas mãos se perderam na calculada escuridão, incapazes de te ferir, enquanto múltiplas cores inominadas explodiam ante aos meus olhos fechados, e eu sentia múltiplos olhares e um único pincel a me repintar naquelas cores todas que me cobria enquanto alguém cuidadoso e sensato me esboçava em minúcias anatômicas com a paciência de alguém que desenha a taça perfeita para se beber vinho — e o bebe.
Acordei, molenga, o coração capengando e o corpo em algumas partes arroxeados. Passei as mãos nos cabelos e percebi o sol que entrava pela porta aberta já era outro. E você estava lá fora. E sua irmã, retocando meu pé finalmente pronto. Eterno. Ficou a sensação de que eu deveria dar o outro para que a partir dali você, mais capaz, me completasse, mas qual não foi a minha surpresa ao me aproximar de vocês dois — e os meus pés estavam descalços no chão recoberto de manhã (o sol regurgitava nos cabelos da tua irmã e na palheta de cores que você remexia) — e percebi que ao invés de apenas um pé, haviam dois. Pensei por um momento que era apenas a inversão do desenho do primeiro. Sentei-me enquanto você me dava bom dia e olhei o meu outro pé e suas particularidades se desenhavam naquela tela. Antes que eu pensasse algo sua irmã falou que quando viu um — aquele o qual eu tinha tirado a sandália — ela já tinha percebido o outro, por causa da cicatriz. E eu sorri, enlevada, a cicatriz de um copo quebrado quando criança imprudente se delineava igual no pé pintado como um decalque de pirogravura. E eu sorri, agoniada, imaginando um quê de mentira naquela afirmação: e eu queria, cruelmente para comigo mesma, acreditar naquela mentira. Você olhou para mim e me chamou para a cozinha, sorrindo dizendo que iria curar a minha ressaca. O silêncio se sacudia em minha garganta, mas eu não me sentia capaz de formular qualquer fala, qualquer questionamento sobre vinhos ou cores.