Sábado, Novembro 21, 2009

Sobre os 32 anos

aprendi e vi
rostos que se desfazem
o pavor dardejado dos emaranhados
de sins e nãos
a escrita cuneiforme entalhada nas mãos
nos rostos quebrados de reflexos
dos lábios submissos que dizem adeus
à beira do rio que sigo desde os meus pés infantis
e o qual nunca me apeteceu cantar
seu choro de lama e fedor
as nuvens caindo por trás da Cruz do Patrão
fantasmas de risos secos
selvagem calor em caminhada ziguezagueada
por cima das pontes
de rostos tão impregnados de sorrisos que fenecem
de passado que passado já não é mais meu
é uma velha roupa transformada em pano de chão
aprendi e vi
os cachos de cabelos correntes de outrora
de um coração hoje fortaleza
força a reza de beira-mar que já não piso mais
de trezentas horas relembradas ontem e hoje
os porões destrancados que me fazem eu
e que me guardarão um dia quando eu ser apenas
o que vejo aprendo e vivo
lembrança

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Você [3º trecho]

Você cantarolou brincando que iria guardar um retrato meu em branco e preto, me transformar numa espécie de sonho perene da tua vida. Eu olhava o fundo da xícara de chá preto que você havia me dado e eu perguntei a você finalmente por que você só pintava, jamais havia escrito algo e era mais fácil pintar porque você tinha medo das palavras, já bastava o quanto que ouvia não era necessário escrever: para um psicólogo como você era imprescindível fugir das palavras com uma certa freqüência e me perguntou por que eu não me atrevia a escrever como uma neurologista paulista que você mesmo conhecera e eu também conhecia por artigos médicos não por poemas e eu disse que não tinha nada a ver, não me imaginava fazendo outra coisa senão remexer em circunvoluções, tumores, lobos, serrando crânios, lutando contra a morte, ou melhor, de repente até acelerando esse processo de entrega: quando o desengano bate no médico na hora de ver o cérebro à sua frente é que sabemos que está tudo perdido, cutucamos daqui, dali e a extensão do que não percebemos nos exames se descortina a nós de forma muito mais real e cruel do que o mais cruel dos versos, do que o mais triste dos parágrafos e pintar aquilo seria apenas um exercício inútil de sadismo. Você riu e levantou a minha cabeça com a mão no meu queixo e disse que era só passar aquilo para o papel ou para qualquer outro canto — eu rebati não sou artista e vi os olhos da sua irmã passarem ligeiro na sala e eu senti uma vertigem ela levava a camisa suja com uma tinta absurdamente berrante e minha cabeça doeu e você olhou e sorriu, você só sorria naquelas horas e eu me sentia uma idiota hipnotizada, que raios acontecia ao meu caro bom senso? Reagi à tua mão e eu hesitei e não disse o que não queria falar e você me olhou abismado — eu deveria estar absurdamente ridícula como aquela cor berrante que eu vira na camisa da sua irmã, cada vez mais estranha comigo, talvez plena de ciúmes pelo irmão mais velho e você insistiu escreva, não, não há porquê significativo, então imagine, nós brincamos tanto, brincadeiras cruéis, eu não era assim, você sempre foi , você quem disse e eu me confundi, quis acreditar que era a minha voz interior que havia dito aquilo e eu rebati dizendo você é quem sempre foi, seu idiota, você pegou na minha mão e torceu-a levemente, levando meus dedos em teus dedos até à sua boca e eu me desmanchava como uma cor berrante que a sua irmã estava espalhando sem qualquer parcimônia naquele pano enorme amarrado no terraço e eu dizia não, você mordia meus dedos em provocação e eu não, deixe de ser absurdo, quero que você me pinte de verdade e você pediu uma boa razão eu disse você sabe você não sei e apertou talvez esperando que saísse sangue ou a frase que você quisesse ouvir mas eu não a diria não somente para te dar um prazer insano em me ver acidentada, como um elevado em erosão por cada chuva que você derramava em mim com aquela sua cuidada verborragia entremeada a certos olhares e brincadeiras cruéis como aquela com as enfermeiras que você havia levado para o meu apartamento eu não entendera nada, era pra entender? Por quanto tempo você iria manter a minha mão lambida em sua boca eu perguntei e você ficou de repente pálido: era a cor que vinha do terraço o sol castigava o que a sua irmã castigava, eu senti náuseas e quase chorei implorando para a sua outra mão me deixar em paz e minhas mãos, meus instrumento de trabalho, você as estava machucando, eu implorei e você, nada. Eu me vi tentada a te estapear, mas de nada adiantaria, minhas mãos sempre foram delicadas apesar de extremamente firmes: você insistia em me machucar mesmo com a minha passividade resignada, com o meu suspiro de agonia, da minha tremedeira patológica quando eu me vejo perturbada. E você insistia numa frase idiota que deveria sair da minha boca num idioma incompreensível para mim mesmo que eu o dissesse em perfeito português, mas não queria falar isso para ninguém, eu nunca afirmaria nada daquilo nem para mim mesma, afinal pra quê tanta tolice insistente: afinal, você não me tinha quando bem entendesse? Parceira das tuas brincadeiras de mau-gosto (o bom gosto ficava para o momento imediato ao momento imediato do pós-gozo) nunca me aventurei a tecer considerações a respeito do que viria de dentro ou não. Não me importava, em absoluto. E você insistia, tuas mãos me percorriam, um insistente peditório para que eu escrevesse algo apenas para teu deleite, tuas maluquices... Eu, já sentindo as minhas mãos mais livres, embora avermelhadas por tua violência, me entregava candidamente àquela sensação boa de quem está pairando até acima de si mesmo, buscando algo num céu bem próximo, como se a boca aberta num espasmo gozoso pudesse fisgar algo suspenso no céu de nosso teto...

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Você [outro trecho]

Entrei na sua casa perseguida por um estranho raio de sol em meio a um tempo nublado. Estranhamente vi uma casa colorida, imaginei que alguém como você teria uma morada cinzenta como a maioria das mentes cinzentas que você analisava. Cores, muitas cores. Para minha surpresa você pintava com graves espatuladas meninas morenas que se espalhavam em telas não emolduradas ao longo daquele terraço e de outros corredores perto dele. Meninas? Ou uma menina, apenas? Sorri àquelas pinturas tão taitianas e vi um olhar de Gaugin em você. Você sorriu e me mostrou a sua modelo. Sua irmã. Treze anos que me sorriram quando apertei-lhe a mão direita que segurava uma flor desespinhada. Perguntei pelos teus pais, pergunta até aquele momento jamais feita, você não sorriu e a menina, sisuda, me deu resposta amassando como se todos os espinhos a ferisse em todos os lados do seu pequenino coração: mortos. Mas aquele estranho raio de sol refletiu nos dois pares de olhos que se abraçavam, os irmãos órfãos enlaçados como numa ambígua pintura que eu vi encostada à parede do corredor frontal ao meu olhar. Quem os modelos abraçados, nus? A inocência é sempre desnuda, a malícia é quem veste a roupa do fetiche. E eu senti remorso. Momentâneo, mas senti.

Fomos almoçar, em meio ao almoço retalhos de conversas profissionais e nossa maledicência enumerava as pequenas incompetências dos amigos-inimigos. Sua irmã parecia acostumada àquelas conversas e aos nomes que desfilavam, escorregando pelos garfos e rebebidos com pequenas taças de licor de cacau que você trouxera de Ilhéus. Os olhos dela baixavam e buscavam a palheta de cores recém-preparadas, talvez o corpo dela ansiasse posar — ela talvez tivesse ânsia de eternidade — só depois encontrei junto a alguns cavaletes protótipos de pinturas nas quais entre um inocente primitivismo as espatuladas prenunciavam a sensibilidade clarividente de alguém que enxergasse muito mais que nós dois juntos, mas eu não me imaginei nunca pintando: a força hábil das minhas mãos era para a extirpação: talvez em meus bisturis viessem pedaços de talentos, a arte dormita nos lobos centrais, se não me engano, mas eu sempre ria da minha leitura de Paul Broca. Ela pinta. Você sorria olhava para ela e ela sorria em devolução ao teu elogio escondido no sorriso da tua afirmação. Cumplicidade. De quem eu era cúmplice? Nem de mim mesma: o espelho me servia para os retoques da mina maquiagem diária, nunca desentranhei dentro do olhar ali adiante de mim qualquer tipo de cumplicidade. Confiança — o que é muito diferente — eu sempre depositei em minhas mãos.

O resto da nossa tarde meio epicurista passou-se em uma agradável conversa sobre cores. E você falou de cada matiz presente em mim. Da pele do rosto, dos braços, das mãos. Os cabelos, da raiz às pontas. E sua irmã num ímpeto todo de adolescente falou da cor dos meus pés — eu estava de sandálias — e você disse que já tinha percebido e pediu para que ela pintasse algo. E ela, não, o esboço vem antes.

E você me dizia enquanto ela pegava o papel e o carvão que ela tinha fixação por pés. Podólatra? Não, apenas curiosidade de quem observava por horas a sua própria anatomia. Ela voltou, ao seu pedido tirei uma das sandálias e aos meus olhos surgiu ligeiramente uma duplicata desenhada no papel; as veias, os tendões, as juntas dos artelhos, o meu corte pessoal das unhas carentes de pedicure. Colocado no cavalete em uma tela de eucatex com nomes de cores que não entraram em minha memória ressurgia em outra visão, uma visão tão espatulada quanto a sua meu pé repensado, uma essência ausente em mim recriada em mãos ligeiras e audazes que me senti pequena e bebi do vinho que você colocava na taça trêmula em minhas mãos e eu me vi bêbada, carregada por você enquanto você deixava a sua irmã, com um olhar cúmplice, atarefada com o meu pé.

Teu quarto não era alcançado por luz estranha alguma e eu enxergava o teu vulto a me beijar por entre uma névoa de vinho e ele caía em minha boca, corria minha garganta e em meus peitos, bebidos por teus olhos e em minhas mãos subitamente envergonhadas a tanto vinho naquele quarto, em minhas pernas molhadas de beijos e o quarto esquisitamente aparecia em outras cores que saíam da tua boca recitando outros matizes do meu corpo finalmente descobertos e você declarava triunfante o róseo e o rosé agora juntos em um longo beijo misturado aos meus espasmos gostosamente apertados com uma tenaz que fechava essa boca e essas cores unidas ao vinho que agora alcançava outro colo e nervosas pernas que contrastavam com as minhas mãos novamente fortes a acariciar teus cabelos tão fartos, minhas mãos sempre apalpavam cabeças raspadas cuidadosamente raspadas para a trepanação, e minhas mãos as penetravam com os bisturis redentores ou antecipadores de um desengano mais tarde comunicado nos frios relatórios que eu preenchia com um quê de crueldade reservada àqueles seres tão fracos...

Sua cabeça eu só acariciava com a força das minhas mãos e meus pés dançavam nervosos, até que eu senti o beijo que agora tentava domá-los. Mas como aquela agonia permanecia na base do meu ser e se desdobrava até lá? E aquela delicadeza toda tão cúmplice das tuas cores se espalhava e minhas mãos se perderam na calculada escuridão, incapazes de te ferir, enquanto múltiplas cores inominadas explodiam ante aos meus olhos fechados, e eu sentia múltiplos olhares e um único pincel a me repintar naquelas cores todas que me cobria enquanto alguém cuidadoso e sensato me esboçava em minúcias anatômicas com a paciência de alguém que desenha a taça perfeita para se beber vinho — e o bebe.

Acordei, molenga, o coração capengando e o corpo em algumas partes arroxeados. Passei as mãos nos cabelos e percebi o sol que entrava pela porta aberta já era outro. E você estava lá fora. E sua irmã, retocando meu pé finalmente pronto. Eterno. Ficou a sensação de que eu deveria dar o outro para que a partir dali você, mais capaz, me completasse, mas qual não foi a minha surpresa ao me aproximar de vocês dois — e os meus pés estavam descalços no chão recoberto de manhã (o sol regurgitava nos cabelos da tua irmã e na palheta de cores que você remexia) — e percebi que ao invés de apenas um pé, haviam dois. Pensei por um momento que era apenas a inversão do desenho do primeiro. Sentei-me enquanto você me dava bom dia e olhei o meu outro pé e suas particularidades se desenhavam naquela tela. Antes que eu pensasse algo sua irmã falou que quando viu um — aquele o qual eu tinha tirado a sandália — ela já tinha percebido o outro, por causa da cicatriz. E eu sorri, enlevada, a cicatriz de um copo quebrado quando criança imprudente se delineava igual no pé pintado como um decalque de pirogravura. E eu sorri, agoniada, imaginando um quê de mentira naquela afirmação: e eu queria, cruelmente para comigo mesma, acreditar naquela mentira. Você olhou para mim e me chamou para a cozinha, sorrindo dizendo que iria curar a minha ressaca. O silêncio se sacudia em minha garganta, mas eu não me sentia capaz de formular qualquer fala, qualquer questionamento sobre vinhos ou cores.

 
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