Terça-feira, Novembro 10, 2009

Ichthys [2ª versão]

nenhum rei aparecerá para oferecer mirra
nem os animais se debruçarão para contemplar
o pai virará a cara desde já

ele não é o pai

peregrinação para fugir do massacre
não adiantará
o futuro é de pedras e açoites

águas nervosas
nãos repetidos
nos montes, as mãos postas

abandono

não salvo
não morro
não choro

as pernas quebradas
o flanco espetado
o olhar esquivo da mãe
e da puta

o irmão não olha mais fixo

ninguém olha mais

minha casa é um pão sem fermento
meus fiéis não fazem preces
nada

ninguém se salva
ninguém revive
ninguém sobrevive

no inferno, à deriva
visto negro
no monte repleto de caveiras insurrectas
sou sangue

eu sou um esquecimento nos olhos de um deus
o sofrimento nos olhos da puta
um grito nos lábios de uma mãe

a tempestade desmancha meus gritos pela madeira

o terceiro dia virá
e eu estarei morto
como todos.

Carta jogada na garrafa

longa é a carreira da morte
branca é a rua da morte
repleta de dramas nos teatros das ruas
a morte é lentarrapidamente lapidada
com colheres e faíscas
bambus e canudinhos coloridos
do sorvete intragável
da entrega mais idiota

cinza é a carta sem destino
a espera jogada fora
do lado mais errado
a via láctea mais impura
impregnada de poeiraveneno
fora do baralho
os dados dançam sem pontos negros
nas suas espáduas
incompreensivas

o pulso sem tremor
boca pálida sem beijos no chão do estertor
o livro lançado na areia de uma praia fria
o horror
o horror
da viagem imersa no erro
nenhum espetáculo salva nada
nem o último brinde da saudade dilatada
o adeus

Domingo, Novembro 08, 2009

Dos Canivetes [2ª versão]

para quê, falar?

Eu,
uma eterna espinha
entalada na garganta
no meu destino
o coração
impuro

para quê, Eu?

não tenho pena para
escrever
nem dó

retrospectiva das coisas
memória sem rio
sem barca
réu sou da comiseração
mais tola

línguas e perdições
sim
isso quero
como a espinha de um peixe
entalada na minha goela
Eu

para quê, saber?
queimados os ossos voam
até o branco da eternidade
dos dentes
beijam as nuvens que guardam
as cinzas

Eu

não resto

sobram os peixes eviscerados
as facas
os canivetes
as línguas cortadas
os horizontes decepados
de um pudor oleoso
que a tudo abraça

resta

o meu destino
um colar
de aleluias
e bisturis

 
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