Uma possível testemunha
— Veja só: até o povo que diz que tudo não passa de balela, quando tem de varrer o décimo – primeiro se benze pra não sair cagado de medo. Eu mesmo não acreditava muito, mas depois de uns tempo, ouvindo coisa, uns riscado estranho, como de unha de cachorro raivoso no chão, uns gemido atravessando porta e vento, uma risadagem a altas hora da madruga... Aí, você, que tá de vigia junto com o povo da Patrimonial, fica pensando que é tudo aluno de História ou Filosofia, que fica entocado no D.A. depois da aula pra fumá maconha e fazê putaria. Todo mundo sabe esse povo acaba fazendo mais zona do que estudo. Mas aí fica complicado de dizê “é isso”, porque a gente bota tudo pra fora sem mais lá pras dez da noite e depois não fica mais ninguém. Aí a gente se pergunta “quem é o filho da puta que conseguiu ficar?”. Aí você vai vê, não é nada, ninguém. E começa a torá um aço danado, porque já sabe que é malassombro. Porque pulam e as alma fica agoniada, também perguntando por que. Aqui tem gente que jura que ouve o vento gritar. Que os assovio da tarde é um chamativo do Cão pra gente de alma perturbada fazer a viagem sem volta. O senhor nunca reparô que aqui ninguém faz fita? Pula e pronto: tebêife. Cabou-se. Que Deus me perdoe, mas acho que só presta assim, sem frescura. Quer morrer, morre. Pra quê chamar atenção, né?
Uma tarde
Um sapo de borracha, tomado de um aluno, ri para mim. Acho até que, com um pouco de fé, colocando o nome de algum desafeto dentro da boca dele, serviria como uma bruxaria bem pregada: afinal, o que vale é o pensamento. Rio dessas estapafurdices; calço os sapatos e saio, sem dizer tchau a ninguém. Ninguém. Afinal, para mim, ninguém acaba sendo uma companhia constante e presente, mesmo que o sapo de borracha me faça rir no meu canto onde se amontoam livros e pensamentos. Pensamentos que correm à rua procurando notícias dela, como uma bússola talvez procurasse um medo peregrino, um plano de perturbações colado às paredes das ruas como um cartaz de um show de música de mau gosto, que você olha e sente náuseas, porque se sente superior e acha tudo aquilo uma babaquice medíocre e desprezível.
Percebo em minhas mãos um tremor antes não encontrado nos mínimos gestos de trancar o cadeado, de contar as moedas para pagar a passagem do ônibus, do digitar as teclas do celular para falar com Beto e ver se ele abriu sua barraca de café lá na Universidade, perguntar se eu poderia ir lá jogar conversa fora (na verdade também maluco para ouvir rumores ou imaginar porquês que eu nunca tinha imaginado porque eu preferia dizer “se fudeu, o otário, ou a otária” àquela gente que sem titubear lançava-se aos ventos de quinze andares) e até pensar em subir as escadas. Escadas que eu subia preguiçosamente, de cabeça baixa, até que minha irritação ancestral fazer com que eu mandasse tudo à merda e seguisse a minha vida em outro curso e em outro centro.
Eu estava embriagado com o meu próprio cansaço e com o medo de que em algumas horas aparecesse a notícia de uma desgraça. Medo filho de outros temores pequenos, como o de chegar em casa e vê-la de cabelos cortados, e ela, cruzando pernas e braços nas almofadas do meu chão mal varrido dizia simplesmente foi a tesoura, tesoura do desejo. Desejo de mudar.
Merda.
Sentir essa tremedeira era como se sentir na beira de um parapeito e estivesse prestes a pular. E ela riria da minha covardia.
Um café
Café frio e doce. Beto sempre achava estranho eu deixar o copinho lá, agoniando minhas agonias, enquanto eu jogava um monte de bravatas e risadas e baforadas de um cigarro vagabundo (a grana tava curta e eu tinha de economizar sem me desfazer da bosta do meu vício) e falava mal de mestres e colegas. Outro vício.
Cabuloso, o Beto. Não sei quantos anos com aquela barraca ali, fazendo amizade com professores e alunos, e os calouros querendo uma intimidade forçada com ele, como se estivessem zanzando pelo campus a milhares de anos. E Beto, com uma grosseria doce e divertida cortava o barato da pirralhada. Cabuloso, o Beto. Podia perceber na minha blusa mais bem comportada a curva dos meus peitos e a tatuagem na minha espádua direita. Elogiava o anjo que eu tinha. Que mané anjo, Beto: é o Ícaro. Ele ria, ele sabia. Embora parecesse ao populacho que ele era um fudidaço de marca maior, Beto com certeza tinha mais tino e sapiência (como ele mesmo dizia) do que muito doutorzinho fuleiro. Me fiava café e cigarro por camaradagem, mas sempre fazia questão de alisar minha mão quando eu me despedia. Uma canalhice suave, de galanteador prestes a se aposentar... Eu sorria, até meio constrangida, mas também porque sabia que ele sabia, lendo minhas olheiras, quando eu acordava lascada.
Olhei a barraca de longe, mas não quis ir lá pedir o café pra deixar esfriar. Minha vontade era de pegar o copo e ir lá pra cima e olhar a paisagem, mas a turma nos corredores andava um porre, como se de repente todo mundo passasse a ser uma câmera de segurança.
Eu sempre detestei a sensação de vigilância, fosse qual fosse.
Principalmente daquelas que parecem que põem algemas nos nossos calcanhares.
Um salto
Ali não tão longe ainda ouvi o eco de uma queda. Baque feio, de fazer correr os pombos e os pirralhos que vinham da pelada na quadra do colégio voarem gritando para qualquer lugar longe do barulho.
A turma que comia tranquilamente também se debruçou por cima das mesas e das grades, mastigando o medo e a curiosidade. A fumaça do cigarro balançava por entre meus olhos, mas vi que umas pessoas correram para ver, socorrer, sei lá.
Alguém gritou “que porra é essa?”.
Nunca vi em tantos anos alguém gritar isso depois que do alto de quinze andares um corpo desmantelado se aboletava no chão do estacionamento ou nos pés de coração-de-negro que jogavam sombras no caminho até o Centro de Educação. Já vi alguns alunos chegarem aqui e desfilarem o seu humor negro sobre cada idiota que abria os braços e, sem gritos, respiravam os últimos ventos de suas existências cretinas.
Alguém riu, com raiva e repetiu “que porra é essa?”. Alguns curiosos olhavam e perguntavam, “que merda é essa que tá acontecendo?”. A multidão de urubus humanos arrodeava o motivo de tanto burburinho e vinham gargalhadas e olhares ao alto, onde, de um dos parapeitos (acho que do décimo - terceiro andar) uns quatro caras, vestidos de palhaço riam sabe-deus-do-quê, enquanto a turma no chão praguejava sabe-o-diabo-do-quê.
Ele chegou e viu ainda alguém remexer naquilo que estava no chão. Pediu um café e tremendo (nunca o vi desse jeito) perguntou que “porra era aquilo”.
Nem eu sabia que danado era aquilo.
De repente um dos pirralhos do colégio pegou aquilo e saiu correndo pela alameda junto com outros moleques.
“Aquilo” era uma boneca inflável.
Depois de uma conversa (ou antes)
— A idiotice parece ser uma coisa que se estampa na tua cara como uma tatuagem mal feita.
Deu vontade de pegar a guimba do cigarro e enfiar no meio do olho dele. Talvez com a mesma violência que ele usava pra enfiar em mim depois que a gente fumava bagulho e ia pra cama, totalmente lombrados para depois curtir uma larica mútua pela manhã, regada a leite e risos.
Mas a mania de usar a sua paranóia para me tornar paranóica já estava me enchendo. Não gostava de sentir minhas mãos tremendo, de queimar minhas unhas com o isqueiro ou de simplesmente soltar gritos juntamente com fumaça e sair tossindo como quem vomita ansiedades. Gostava de sentir uma doce liberdade, dessas que você sente quando está numa varanda e o vento sopra a fumaça doce de um cigarro de bali por sobre os seus cabelos. Uma liberdade que aceita uma carícia inesperada por trás, como quem faz um convite repleto de malícia para doces sem-vergonhices.
De repente foi como se tudo caísse.
— A idiotice parece ser uma coisa que se estampa na tua cara como uma tatuagem mal feita.
Rebater, discutir? Para quê?
Detesto idiotices. Melhor ir embora, já não estava bem, tudo parado, tudo suspenso como uma mão que segura um cigarro apagado, não há isqueiros ou fósforos e os dedos sonolentos.
— Você acha?Então se foda!
E saí como quem pula pra longe de uma estrada errada, como quem pula de uma janela cheia de espinhos. Espinhos que ficaram gritando atrás de mim, como assim, não é assim, virar e dar o fora.
— Te fode, te fode, te fode.
Minhas mãos tremiam.
Meus olhos no ônibus se penduravam nas janelas andantes, como se cada um deles pudesse saltar e levar minha alma junto com eles, para se espatifar junto a um meio-fio sangrento e de pessoas urubuzentas que me olhassem com piedade.
Subindo escadas
Passei no bar e tomei uma garrafa, sozinho, destes vinhos vagabundos. Fazia tempo que não vinha por aqui. Da última vez, uma menina grávida tinha se jogado, caído de cabeça em cima da biblioteca que nem tinha sido inaugurada. Mas o vigia com quem falei talvez se referisse a outro caso, mais recente. Caso recente que embora visto por centenas de pessoas em pleno dia claro, foi devidamente abafado.
Como sempre, aliás.
Como sempre, também, ouvia pelo combogós do prédio o assoviar da ventania.
Vem. Vem. Vem.
E um enregelar de dedos, de pensamentos, de cabelos que sobem arrepiados, como antenas que captassem a angústia dos gritos — ou o silêncio angustiado — que ficaram impregnados nas paredes externas.
Medo.
Queria vê-la, para saber dos passos, das mãos trementes.
Uma menina passa ao meu lado e sorri. Parecia a mim, por alguns instantes que tudo estava vazio, sem aulas, sem nada.
VEM. VEM. VEM.
Precisei parar e respirar. Subir escadas que antes eram tão fáceis de subir, pareceu-me muito naquela hora.
Uma visão
Subi até o alto com todas as palavras ecoando. Levadas pelo chamado desse vento que tanto me agrada e me incomoda, batem nas paredes e espancam meus ouvidos. Ao menos assim peço a ele que leve todas as tolices que ficaram girando por volta da minha cabeça.
Pior que a vontade de estar ao lado é forte.
Lancei mão da minha intuição e fui subindo. Entretanto a voz dos meus próprios ecos me fazia ir mais e mais. Ecos de uma transa feita às pressas. Ecos dos meus próprios gemidos de satisfação. E de amor, apesar de tudo.
Olhei o parapeito do décimo - primeiro. Tinha sido dali, achavam, que aquele menino esculachado por todos — e que de repente passou a ser visto como uma espécie de mártir desajeitado — tinha se atirado.
Eu o conhecia. Vínhamos às vezes no mesmo ônibus compartilhando nossos fascismos, rindo: inofensivos. Corrijo-me: talvez ele fosse mais inofensivo do que eu. Meu veneno, atiçado por pequenos ódios e por intolerâncias capazes de me fazer nem olhar a mim mesma no espelho eram coisas nocivas, que feriam, machucavam. A mim e a quem estivesse próximo a mim.
Não sei se por vergonha. Ou medo.
O fato é que eu vi uma sombra, mas não era a sombra de alguém que está perdido no sonho de uma morte jogada aos céus. Era como se alguém fosse a sombra de si mesma, como se todo um aparato de tristezas e lamúrias se transformasse num lençol.
Eu gritei. É, eu gritei.
Não me senti, nem vi minhas mãos estendidas ao léu, numa atitude tola de tentar segurar algo mole que se desmancha nos vãos do vento.
É, eu gritei.
E não ouvi o eco do meu grito.
Um grito
Ela gritou. Lembro que ela gritou. Eu sempre a mordia pela manhã. O braço, a boca ou o mamilo. Ela gostava. Como também gostava de pegar o café que eu deixava em cima do criado-mudo soprar o vapor e deixá-lo esfriar.
— Tá doce? Se não, me traz o açúcar. Por favor.
Ela gritou. Eu mordia o seu pescoço nos momentos últimos das nossas transas.
— Filho de uma puta gostoso!
E depois dizia, enxugando o suor da testa:
— Vá na farmácia e me compra um Sabiá, seu merda...
Eu olhava a mancha, orgulhoso.
Beto me disse que a tinha visto perambulando por uns dias. Que tomou café frio. Que conversou pouco. Que depois a tinha visto ao longe, que não passou pra tomar café, nem pra conversar. Apenas um sorriso perdido, um aceno largo.
— Os olhos dela estavam tristes... — e tomava café — Isso, de longe, dava pra sacar.
Eu ouvi o grito no vento.
Era o grito dela. Diferente, mas era o dela.
Corri e a vi: ela e outra pessoa. Talvez nem fosse outra pessoa, fosse a alma dela indo para o céu, enquanto o corpo dela ia para o chão.
A culpa gritou junto com o vento.
VEM VEM VEM VEM
O vento tem voz?
Outras possíveis testemunhas
— Que merda. Desta vez não foi protesto, nem boneca inflável.
— E foi o quê? Coletivo?
— Como um ônibus que capota.
— Puta que pariu.
— É. Mais café?
— E cigarro, por favor.
O silêncio
VEM... VEM... VEM...
* Conto originalmente publicado no Escritoras Suicidas, sob o nome de Abigail Simmons






10 comentários:
Oi my dear,
Gostei do teu conto...Fiquei imaginando a universidade, a rotina...
Café frio? Tenho esse hábito...
Ando meio correndo, mas estou torcendo para que as férias já tenham começado e sejam ótimas.
Besos e besos!
Oi my dear,
Gostei do teu conto...Fiquei imaginando a universidade, a rotina...
Café frio? Tenho esse hábito...
Ando meio correndo, mas estou torcendo para que as férias já tenham começado e sejam ótimas.
Besos e besos!
Foi mal! Desculpe!
+ besos
Uma boa PROSA entre um café, um cigarro e outras coisas...
Kiss!!
Bacana, mas ainda aposto num plagiozinho safado à minha postagem de 17 de nov 2007, "Sobre Homens e Trampolins":
http://oocio.blogspot.com/2007/11/sobre-homens-e-trampolins.html
Brincadeiras e coincidências à parte, bom texto, que tu já havia me mostrado. Parabéns.
vc já tinha me mostrado esse, mas ainda assim vale reinterar que ficou mto bom.
Ei, muito bão! Intrigante e envolvente...
Álisson,
Saudades de visitar os amigos... quase não acesso a net, até o blog está nas mãos do Tony, senão estaria as moscas.
Mas espero dias mais calmos...
Gostei do teu conto.
Bom fim de semana.
Grande abordagem psicológica!
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