Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

(Des) endereços

o sol de uma cidade sem auroras morre no paradoxo tolo
das estreitezas repetidas nos nomes das ruas
nos antigos pórticos destruídos nas paradas de ônibus
nas barreiras estremecidas dos parapeitos das pontes
a saudade de esquinas de almas que se esquinam percorrem
as bíblicas ilusões: 
o desuso das casas o desuso dos cemitérios:
todos os túmulos agora moram em mim
todos os itinerários caem dos mapas 
todos os meses somem das linhas das mãos
meus endereços não indicam mais minhas moradas
nem as palavras que enuncio em meio a sorrisos tímidos
em cada parcela de cada hora minutada 
na decoração muda de caminhos irredutíveis 
deslocados e retardados na imensidão mínima do mundo
de todas as sílabas que enumero na vã tentativa de me ser
dos pronomes jogados ao léu os farrapos que restaram
da diáspora alucinada das folhas nas quais eu escrevia
rotas e cansaços, 
desendereçados dos sóis apagados que somem-se daqui
suspirando por seu lugar em lugar algum

2 comentários:

Aline disse...

Sumimos, mas sempre voltamos, ou na verdade não voltamos, pois não viemos de lugar algum.:) bela secura de palavras, bela ausência de catarse... belo mundo.

Yan disse...

Ao contrário de Aline me senti inundado e afogado em um mar de catárse e por isso não venho parabeniza-lo e sim agradecer. Agradecer por escrever o que sinto de uma maneira diferente de meu estilo e que seria incapaz de escrever. Obrigado.

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